PRAIA D’BOCHE DE ROTCHA | D’BOCHE DE ROTCHA Beach Créditos Fotográficos | Photo Credits: Joli Moniz

Sodade

“Sodade” é um sentimento que nos leva a atravessar oceanos e que nos preenche o imaginário, enquanto distantes. É nostalgia, é amor e é também um pilar de Cabo Verde e da sua diáspora.

Falamos de saudade que atravessa gerações de comunidades emigrantes Cabo-verdianas, que apesar de perseguirem o sonho além-mar, continuam a perpetuar o eco da sua identidade insular.

Os “filhos” da Diáspora conhecem Cabo-Verde, através das vivências dos seus pais e avós, que vão cultivando no seu Ser a carência de algo que ainda não conheceram, tanto através de músicas como a belísssima Morna “Sodade” de Armando Zeferino Soares e celebrizada na voz de Cesária Évora, assim como através de memórias e fotografias. Esta é a história de muitos descendentes Cabo-Verdianos, que procuram uma experiência turística que os aproxime ainda mais das suas raízes e dos seus antepassados, tal como Joli Moniz.

O percurso de Joli é inspirador, uma vez que experienciou uma viagem transformativa na sua adolescência a Cabo-Verde, e há 7 anos decidiu mudar totalmente a sua vida.

Descubra porquê que Joli mudou a sua vida.

1.Pertence à terceira geração de emigrantes cabo-verdianos. Como foi crescer nos EUA?

Eu tive uma infância fantástica – até idílica. Fui criada em Hartford e Connecticut, numa rua tranquila, com famílias principalmente afro-americanas que eram muito próximas. Embora a área de Hartford não tenha uma comunidade cabo-verdiana significativa, a verdade é que a um dado momento éramos uma das três famílias cabo-verdianas que vivia na mesma rua! Ao crescer em Hartford, tivemos o benefício de conhecer diversas culturas como a vibrante e numerosa comunidade caribenha com muitas semelhanças com a cultura Cabo-Verdiana. Depois mudámo-nos para um subúrbio pacífico e predominantemente branco em Hartford chamado Farmington. Eu também gostei de lá morar. Tive a sorte de frequentar boas escolas e até vivi vários anos na área de Nova York.

Eu estou definitivamente grata pela minha educação americana. Ter tido a oportunidade de conviver com pessoas de diversas origens e modos de vida, que me permitem hoje em dia estar em qualquer ambiente do mundo, de forma confortável e confiante. Também estou grata pelas oportunidades que a minha cidadania americana me concede. Eu nunca dei nada como garantido.

 

Joli Moniz   Joli Moniz

 Vila da Ribeira Brava                             Joli Moniz  em São Nicolau

Créditos Fotográficos: Joli Moniz

 

2. Em determinado momento, sentiu que a sua identidade ou era norte-americana ou cabo-verdiana?

Enquanto estava a crescer, sempre me senti tanto afro-americana como norte-americana de ascendência cabo-verdiana. Mas, depois de passar mais tempo em Cabo Verde e verificar que a minha familia americana tinha uma forma de estar muito crioula, então eu diria que neste momento a cultura cabo-verdiana e o seu modo de vida combinam muito mais comigo do que a americana. Agora, sinto uma ligação mais forte com Cabo Verde, e com África em geral.

Depois de morar em vários lugares nos EUA, finalmente sinto-me verdadeiramente em casa, aqui em Cabo Verde. É difícil de explicar, mas é onde a minha alma se sente mais em paz.

 

joli moniz

Créditos Fotográficos: Joli Moniz

 

3. Sente que a sua família lhe incutiu um“chamamento”por Cabo Verde?!

Com certeza! Até hoje, agradeço aos meus pais por terem-me criado a mim e aos meus irmãos com consciência e orgulho na nossa cultura, e principalmente por nos trazer a Cabo Verde em idades tão jovens e impressionáveis.

Ter visto o meu pai fazer tantas viagens de ida e volta a Cabo Verde, inclusivé para trabalhar com o Ministério da Justiça na reforma do sistema legal, e a minha mãe a organizar uma viagem em 1995 através de um voo fretado pelo Banco Mundial para quase 150 americanos (principalmente de descendência cabo-verdiana), incutiu ainda mais em mim a importância de regressar e contribuir para este belo país.

 

4.Por que é que considera que voltar às nossas raízes é agora tão importante?

Na minha opinião, nesta vida, estamos enraizados com três aspectos principais: fé, tradição/cultura e família. Sem eles, podemos andar a vaguear pelo mundo completamente perdidos. Se alguém tem a sorte de saber quais são as suas origens, então deve tirar o máximo proveito disso! É uma oportunidade que não deve ser dada como garantida.

Quando se tem a oportunidade de visitar o país do qual se é descendente, sentimo-nos comovidos e transformados para uma melhor versão. Temos muito mais orgulho e uma maior compreensão sobre a nossa identidade. Para além de se fazer ligações com determinados aspectos que nos faz compreender melhor a nossa família. É quase como resolver um quebra-cabeças que não soubessemos que existia.

Depois de visitar Cabo Verde pela primeira vez, de repente passei a entender certas coisas, como por exemplo: porque é que a minha avó Ida costumava varrer ao ar livre, até mesmo a terra; porque razão nas reuniões de família passávamos muito mais tempo a dizer adeus do que olá; passei também a conseguir visualizar as ruelas empedradas que apareciam nos contos infantis do “Velho País”, que o meu pai nos contava. E entendi também porque é que certas músicas cabo-verdianas, faziam-me chorar, embora, naquele momento, eu não conseguisse entender a letra, mas de alguma forma sentia a profundidade da música.

Todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de visitar as suas raízes. Se és de ascendência africana e moras em locais onde constantemente te dizem que és inferior e que as tuas origens são de um continente atormentado por violência, doenças e pobreza, então é essencial que “regresses” e visites as tuas raízes africanas, para veres e entenderes a riqueza e a beleza dos teus ancestrais.

Todos nós devemos desempenhar um papel na mudança desta narrativa.

 

A “Sodade” também se faz sentir através da música.

Clique aqui para conhecer alguns artistas da ilha de São Nicolau.

 

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