O mundo do Carnaval

Para quem procura um Carnaval enraizado nas tradições crioulas, terá de participar na festa da ilha de São Nicolau! Aqui o desejo de folia sobrepõe-se a qualquer disputa de prémio. Uma vez que todos sabem, que a maior recompensa desta festa é perpetuar o espírito de entreajuda da comunidade e proporcionar o máximo de retorno para os negócios locais.

 

 

O nascimento de uma tradição

Mais de oito décadas de festa carnavalesca são relembradas na exposição patente nas ruas da Ribeira Brava. Acredita-se que no início do século XX e por iniciativa de um grupo de emigrantes provenientes do Brasil e dos Estados Unidos da América, começaram os festejos em honra do Rei Momo (uma personagem da mitologia grega que se tornou um símbolo do Carnaval). As comemorações eram modestas com simples mascarados. Um festejo que é hoje conhecido como “Comédia d’Carnaval”.

Mais tarde, em 1952, surgiram os grupos organizados. O primeiro a nascer foi o Copacabana, seguido do Estrela Azul, e só mais tarde, o Brilho da Zona. Mas há outros grupos espontâneos, como por exemplo o Metê-Metê, Baianas do Tarrafal, Tchã d’Norte, os Amigos da Natureza ou o Bela Vista.

O Carnaval era, nestes tempos, uma festa muito cordata. Por essa razão, a organização só aceitava jovens com boa reputação, que se comprometiam a respeitar a ordem e o espírito familiar. Era um verdadeiro privilégio participar nesta festa.

O certame era animado por música, e pela diversidade de trajes e adereços que eram confeccionados com muita criatividade pelos próprios foliões. A festa começava de dia, mas prolongava-se até de madrugada.

 

Exposição sobre o Carnaval na Vila da Ribeira Brava (2021)

 

 

O rufar dos tambores em Ribeira Brava

O Carnaval de São Nicolau é o único que dispensa concurso oficial em Cabo Verde. No entanto, isso não significa que haja menos brilho, cor e festa!

A geografia montanhosa da Vila da Ribeira Brava, exige andores e carros alegóricos feitos à medida para se movimentarem nas estreitas ruas. Estas estruturas são elaboradas com metal, papel de cimento e de “smebôd” (uma pasta que é feita de farinha de trigo e água). É nos estaleiros e nas salas dos grupos, que a festa é rigorosamente preparada.

 

Carro alegórico dedicado a Cesária Évora (2019)

 

Nas noites de Sábado e Domingo e na tarde de Terça-feira, o desfile acontece com os grupos oficiais e seus figurantes, organizados em diferentes alas. A chegada ao Terreiro, onde se encontra a Igreja Matriz, é marcada por um intensificar do ritmo da batucada, da dança e da animação, arrebatando o espírito de qualquer um.

O palco é de todos, mas há personagens que chamam a atenção como o Rei e a Rainha. Nos últimos anos, tem sido concedido a muitos emigrantes esta honra. E por isso, é habitual haver uma romaria até ao aeroporto para receber os “reinados”.

 

Desfile de Terça à tarde (2018)

 

A programação desta festa dura quase um mês, havendo lugar a desfiles do Trio Eléctrico e Bateria dos alunos do Liceu Baltasar Lopes da Silva e das escolas e jardins de infância da Ribeira Brava. Para além dos desfiles, muitos também participam no “Carnaval sem vaidade”. É um baile tradicional com violinos, também conhecido como “Bodje d’rabeca”.

 

2021: Um ano sem festa

Este ano o Governo de Cabo Verde cancelou os festejos de Carnaval, em ordem de continuar a sua missão de travar a progressão da pandemia nas várias ilhas. Neste sentido, 2021 foi um ano propício à reflexão. Não só em torno do sector turístico, mas também sobre os desafios que ao longo dos anos têm sido apontados pelos protagonistas do Carnaval em São Nicolau.

 

Figurante no desfile nocturno (2019) | Créditos Fotográficos: MCIC

 

Tendo em atenção que o Carnaval é uma das principais atracções turísticas da ilha, seria importante reforçar significativamente o transporte marítimo e aéreo. Isto permitirá que turistas estrangeiros e residentes em outras ilhas, possam planear antecipadamente as suas férias. Este reforço impactará os negócios ligados ao turismo, hotelaria, restauração e transfers.

O objectivo de qualquer organizador de eventos é gerar uma experiência positiva e memorável junto dos seus participantes. Para tal acontecer, deverá haver um compromisso entre organizadores e provedores de serviços locais. Um compromisso para que o evento corresponda às expectativas gerais. Por vezes, basta um incidente como o incumprimento de um horário, para gerar uma avaliação negativa sobre uma experiência turística construída ao longo de vários dias.

E a melhoria de um evento, passa também pelas condições oferecidas aos seus colaboradores. Nesse sentido, o reconhecimento e “profissionalização” de algumas das artes carnavalescas, poderão ser passos importantes.

 

Formação de percussionistas de batucada (bateria) promovida pelo Município de Ribeira Brava (2021)

 

Oxalá, esta tradição possa regressar com todo o seu esplendor em 2022. Até lá, será em espírito saudoso e de união que se poderá contribuir para a promoção e valorização deste verdadeiro mundo que é o Carnaval.

 

  Partilhar


pt_PTPT