Convidado #5: Toy Alves

Entrevistámos o Sr. Toy Alves, uma das pessoas mais admiradas em São Nicolau. O seu percurso é marcado por uma profunda dedicação voluntária ao desenvolvimento da ilha. Assume-se como o português mais antigo de Cabo Verde, que com 81 anos ainda dá apoio à sua família no lançamento da única unidade de agro-turismo da ilha e o primeiro Museu do Trapiche.

 

1.Acredita-se que o Sr. Toy Alves seja o português mais antigo da ilha de São Nicolau, e provavelmente, de Cabo Verde. Conte-nos como foi a sua infância na ilha.

Estou convencido que sou o português mais antigo de Cabo Verde. Não me recordo de portugueses, que estão por cá, que tenham a idade que eu tenho. Nasci em Portugal, em Lisboa, e vim para São Nicolau no dia 3 de novembro 1939 com apenas 3 meses de idade.

A minha infância teve várias maneiras, porque nos primeiros 6 anos de idade vivi numa propriedade agrícola próxima de Ribeira Brava. Como a propriedade era distante da escola, cerca de 5 quilómetros, os meus pais consideraram que eu era muito frágil para realizar esse percurso sozinho para ir estudar, então decidiram ir viver para a vila.

Fiz a quarta classe aqui, em São Nicolau. Depois fiz exame de admissão ao liceu com 11 anos, e fui estudar para o Liceu Gil Eanes na ilha de São Vicente.

 

Toy Alves na Escola Salesiana em São Vicente | No Liceu Gil Eanes com professores e alunos do 7º ano

Créditos fotográficos: Toy Alves

 

 2. A dado momento foi para Portugal para estudar. Como foi essa experiência?

Fui estudar para a Escola Agrícola de Santarém, uma grande escola. Infelizmente, só lá estive um ano e não foi possível concluir o curso por duas razões: o meu pai acabou por falecer nesse ano, e fiquei sem qualquer possibilidade de assegurar as minhas despesas; e fui também chamado para a tropa para a recruta no período da Guerra Colonial.

Estive na tropa cerca de quatro anos e meio (entre 1960 e 1964), onde fiz a recruta em Mafra (Portugal), e duas formações em educação física e em armas pesadas. Na tropa aprende-se muito de disciplina, e como dava instrução, isso ajudou-me a aprender a ensinar e a tornar-me professor mais tarde.

 

Toy na Escola regente agrícola de Santarém (Portugal) | Mais tarde, na tropa em Mafra (Portugal)

Créditos fotográficos: Toy Alves

 

3. No local onde outrora funcionara o seminário, o Sr. Toy Alves juntamente com outros colegas fundou em 1967 um externato. Fale-nos um pouco desta iniciativa.

A nossa intenção foi provocar o Governo Colonial a abrir uma escola em São Nicolau com o primeiro e segundo anos do liceu e ciclo preparatório. Felizmente, foi uma provocação bem sucedidada uma vez que em 1974 a escola preparatória oficial abriu.

Tudo o que tínhamos no externato foi dado de graça para a nova escola: Oferecemos tudo ao Estado para que a escola pudesse abrir, por exemplo: carteiras, quadros, livros, linguofone, entre outros equipamentos e materiais.

Infelizmente, só estive dois anos na escola preparatória oficial porque era necessário estar disponível a tempo inteiro e com o meu trabalho aqui na Casa Alves, tive que deixar.

 

Recepção do externato ao intendente de Cabo Verde

Créditos fotográficos: Toy Alves

 

 4. O Sr Toy Alves é uma pessoa muito empreendedora e muito respeitada. Investir em São Nicolau foi sempre uma prioridade para a sua família?

Sempre foi prioridade do meu pai, e trouxemos bens de Portugal e investimos tudo aqui. Ele construíu a Fábrica de conservas de peixe denominada Peixel em Carriçal, que foi encerrada em 1975.

Foi ele que construiu, aqui em São Nicolau, um dos primeiros cinemas de Cabo-Verde: Cinema São José que está agora fechado. Nos anos 50, teve também uma frota de camiões de transporte de carga e passageiros. Eu vim dar continuidade a tudo isso.

 

Ruínas da Fábrica de conservas de peixe | Casa Alves (Casa de comércio)

 

5. Estão em fase de conclusão dois novos projectos da sua família. Pode partilhar connosco?

Sim, temos uma propriedade chamada Ribeira Seca . Está lá a casa que foi restaurada, assim como o Trapiche que agora está todo novo e todo moderno. Mas ao lado fizemos um parque, onde já pusemos umas casotas, o trapiche velho e o alambique. Vamos pôr tudo a trabalhar, para mostrar como se fazia antigamente a produção de aguardente e mel de cana de açúcar.

 

Propriedade da família em Ribeira Seca | A ferver o mel que irão depois coar

Créditos fotográficos: José Alves

 

Gostaria de conhecer melhor os projectos da família Alves?

Contacte a Casa Alves:

Rua Dr. Júlio José Dias

Vila da Ribeira Brava

(+238) 2351164

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