Convidada #7: Natalina Fonseca

Será possível dar à vida quotidiana uma nova dimensão? Há quem acredite que sim e viva um universo costurado à medida dos seus sonhos durante os 3 dias de folia carnavalesca. D. Natalina Fonseca é uma professora reformada com 81 anos e não faltou a nenhum Carnaval de São Nicolau! A nossa convidada ajudou-nos a percorrer a História desta festa popular, sem nos deixar de confidenciar algumas das estórias mais deliciosas.

 

1. Como começou a comemorar o Carnaval em São Nicolau?

Desde criança que brincava ao Carnaval, já quando era adolescente tínhamos os nossos “grupinhos”. Era um Carnaval simples. Fazíamos roupas com lenços, juntávamos vários lenços ou até uma colcha e fazíamos disso uma saia. Na terça-feira de Entrudo, brincávamos com ovos e trigo, que atirávamos uns aos outros. Havia sempre alguém que fazia a sua peripécia!

Aos 16 anos, comecei a participar em grupos formados por adultos que organizavam o Carnaval da Ribeira Brava. Naquela época, os grupos eram: Sãojoanista (da zona de São João); Ladeirista (da área de Ladeira); e o Pia Baixante (do centro da vila). Apesar de ser de Ladeira, sempre participei no Pia Baixante, que hoje é conhecido por Copacabana.

 

 

D. Natalina a festejar o Carnaval no seu grupo

 

2. Os festejos de antigamente são muito diferentes dos actuais?

O Carnaval com desfiles organizados chegou a São Nicolau por volta da década de 50. Os senhores Negro Sarafe e Djandja foram os promotores do Carnaval em São Nicolau, assim como os senhores Ferreirinha e Frank Retratista (fotografo) que teve um grupo intitulado de “Irmãos Unidos”.

No passado, não se gastava tanto dinheiro no Carnaval apesar de haver desfiles durante 3 domingos do mês de Fevereiro. Desfilávamos à noite, e pelas 21h00 já estávamos no Terreiro. Na manhã seguinte, voltávamos a desfilar no centro da Ribeira Brava.  Não havia andores, nem carros alegóricos, o Rei, Rainha, Damas e figurantes desfilavam todos no chão! Lalache foi, na verdade, a primeira rainha a usar um “coche”, isto é, uma estrutura em que ela se colocava e um grupo de rapazes puxava durante o desfile.

 Antigamente, a “roupinha” tapava o corpo! Cada um juntava dinheiro para a sua roupa, fazíamos as blusas em tecido de cetim branco, e todos os adereços e fantasias. Desfilávamos muitas vezes com apenas um pauzinho com dois ou três balões.

 

Ferreirinha (autor do primeiro carro alegórico) & Selo dos Correios de Cabo Verde em homenagem a Negro Sarafe

 

3. O que tem saudades no Carnaval de antigamente?

Os ensaios eram secretos, era um grande sigilo em torno do tema, das roupas, das músicas que cada grupo iria apresentar. Este secretismo era muito importante para manter a surpresa até ao dia da festa. Hoje em dia é totalmente diferente. Os ensaios carnavalescos são feitos de porta aberta, e qualquer um poderá pular de ensaio em ensaio, e de grupo em grupo, para descobrir o que irão apresentar no dia de Carnaval.

Outra diferença, é que os grupos antes não se consideravam rivais. Era hábito no domingo os grupos de Carnaval visitarem-se mutuamente e oferecerem um bolo. Infelizmente, esta tradição perdeu-se.

O Carnaval agora é mais pomposo. Por isso, tenho saudades do tempo em que brincávamos ao Carnaval e festejávamos até ao Sol nascer. Era tudo tão simples.

 

 

Desfile de Carnaval (2019) | Créditos fotográficos: MCIC

 

4. Actualmente, São Nicolau tem quantos grupos carnavalescos?

Os grupos oficiais são o Copacabana, o Estrela Azul e o Brilho da Zona. No entanto, há outros grupos espontâneos como os que são originários de Campinho e de Talho. Estes grupos vêm brincar ao Carnaval todos os anos até à Vila da Ribeira Brava. Eles vêm organizados com os seus andores, e fazem sátira à actualidade da sociedade e da política.

Os grupos oficiais têm, por vezes, cerca de 300 figurantes. Sem contar com o rei, rainha, princesa e damas. Estes últimos são nomeados ou os títulos são concedidos mediante pedido, no último dia de Carnaval (terça-feira). Nesse dia, a actual rainha coroa a rainha do ano seguinte. O processo é igual para os restantes.

 

Ala de figurantes no Desfile de Carnaval (2019) | Créditos Fotográficos: MCIC

 

5. Porque é que esta festa é tão importante para grande parte da população de São Nicolau?

O Carnaval em São Nicolau ganhou uma grande força, e há quem diga que está quase ao nível de São Vicente.

As pessoas da Ribeira Brava e de outras partes da ilha estão disponíveis para ajudar com comida que oferecem aos trabalhadores dos estaleiros. Quem está nos estaleiros são voluntários, que não têm salário. Por vezes, começam a trabalhar todas as noites, durante um mês ou dois até ao dia da festa. É uma grande trabalheira!

Quem na verdade beneficia economicamente com o Carnaval são os hotéis, restaurantes, lojas de comércio e as costureiras. Por vezes, um traje de rei ou rainha poderá chegar aos 200 contos (cerca de 1900 euros), e por isso mesmo, muitos dos reis de Carnaval são emigrantes.

 

6. Após tantas décadas, que feitos ou estórias tem para nos contar?

Sempre comemorei o Carnaval em São Nicolau, e quando era criança o desfile não era ensaiado. Por isso, improvisávamos músicas como a “7 e 7 são 14, com mais 7 são 21…” e mais tarde já cantávamos músicas carnavalescas como “Alegremos os nossos corações”.

Tenho uma história engraçada de quando eu tinha 16 anos. O meu namorado não queria brincar ao Carnaval no Copacabana (que era o meu grupo) porque não gostava. Ele juntou-se ao grupo dos “Irmãos Unidos”. Eu fiquei com raiva e deixámos de falar. Nesse Carnaval, cada um brincou na sua sala com o seu grupo! Mas no dia seguinte, já estávamos bem e fizemos as pazes.

Mais tarde, quando já era casada, tive a oportunidade de ser dama do grupo de Carnaval “Fantoches”. Infelizmente, o meu marido faleceu em 2016 e desde então deixei de dançar no festejo. Contudo, nos últimos anos assisto ao desfile da minha casa em Terreiro. Quando os três grupos se juntam na porta da Igreja, lanço flores e serpentinas!

 

Chegada dos grupos de Carnaval ao Terreiro (2019) | Créditos Fotográficos: MCIC

 

7. Que futuro deseja para o Carnaval de São Nicolau?

Desejo que continuem a brincar ao Carnaval com muita paz e amor, e sem rivalidade. Preferia que realizassem o Carnaval com menos gastos, porque nem toda a gente tem dinheiro para ser uma dama ou princesa. Estas experiências deveriam estar ao alcance de toda a gente.

 

8. Depois de todos estes anos de dedicação, o que afinal significa para si o Carnaval?

O Carnaval mexe com as pessoas. Gosto muito do Carnaval. Gosto muito de ver, gosto de entrar no meio dos outros grupos para dar uma alegria. Para mim, “o Carnaval nasceu no céu, foi um anjo que o inventou!”.

 

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